Sinto aquela necessidade estranha de novo, de organizar meus pensamentos, botar em ordem o fluxo constante de palavras que me vem à mente sem fazer sentido. Sinto que errei que acertei que vou persistir em um erro antigo sabendo disso. Tenho medo disso, sinceramente, de não ter sido capaz de aprender nada, de mudar nada. De deixar essa angustia estranha me levar pra lugares que eu sei que não quero ir, mas vou com minhas próprias pernas. Gostaria de entender a cabeça das pessoas que pensam diferente de mim, ou ao menos ter paciência para aceitá-las como são, por que é difícil pra mim ver o mundo com os olhos dos outros. Isso, por sinal, é algo muito estranho pra mim, que antes era uma pessoa capaz de aceitar outros pontos de vista, era pacífica, compreensiva... Há muito tempo que já não me sinto essa garota, mas sinto falta dela. Apesar de saber que, ao voltar a ser ela, voltaria também toda sua dor, seus medos. Ao me tornar uma pessoa pior, me tornei também uma pessoa mais forte, mais dura. Não por completo, é claro, sinto constantemente que ainda não sou forte suficiente pra enfrentar algo de demasiado grandeza como a vida. Mas aquela menina não agüentaria um terço do que agüentei. Sinto falta da inocência dela, da simpatia, do carinho que ela tinha pelo outro, carinho esse que ela não demonstrava, mas deixava transparecer aos poucos. Ao contrario dessa pessoa de hoje, que esconde seus sentimentos como se fossem ruins, obscenos. Talvez me sinta assim por que sei que os sentimentos trazem consigo uma parcela de sofrimento, por saber que a dor da perda é a mais insuportável. Ao mesmo tempo, quando me privo de todos os sentimentos, sinto-me um vaso vazio; um vaso bonito, mas sem flores, sem utilidades; como aquele tipo de vaso que algumas pessoas usam pra jogar bugigangas dentro, simplesmente coisas que não servem mais pra nada.
Meu mundo passou a girar em torno de mim mesma, assumo isso, embora não sem sentir uma pontada de vergonha. Gostaria de ser uma pessoa mais altruísta, mais amável. Mas parece que uma camada de gelo se formou em volta de mim, sinto uma dificuldade enorme em quebrá-la. Não sei que tipo de qualidades eu tenho, vejo com mais clareza os meus defeitos. É uma surpresa pra mim saber que alguém é capaz de se apaixonar pela minha pessoa, pois eu mesma não gostaria de mim, se fosse outra. Gostaria de mudar o mundo, criá-lo ao meu jeito. Mas acho que se fosse assim, todos beijariam meus pés. Não me orgulho de nenhuma dessas minhas características, pelo contrario, dissimulo-as para que os outros não notem o quão mau e egoísta eu sou. Talvez daí surja a minha incredulidade ao ver que alguém se apaixona por mim, pois essa pessoa não me conhece de verdade, essa pessoa conhece a imagem que eu deixo passar.
Como alguém como eu pode ter a cara-de-pau de julgar alguém que só lhe fez bem, que só foi sincero o tempo todo? Como posso ser tão falsa e julgar a honestidade de outro alguém que foi tão transparente, ao contrário de mim? Cada dia que passa sinto que sou mais cruel do que antes, apesar de lutar contra isso. Apesar de não querer ser o tipo de pessoa que faz o outro sofrer, apesar de não querer ser, de novo, a menina egoísta que destruiu os sentimentos mais puros do mundo, simplesmente por não acreditar que eles existiam. E, devido a isso, fazer com que eles deixem de existir.
Talvez eu deva ser mais inteligente, talvez eu deva me convencer de que esse sentimento é real, e talvez assim eu realmente passe a acreditar nele. E ele nunca vai deixar de existir. Preciso manter a calma, preciso parar de julgar. Tudo o que eu devo fazer é calar-me e assentir, pois sei quem está certo. Pedir desculpas quando forem sinceras, não por qualquer coisa. Não gritar, não julgar, não acusar sem certeza ou sem razão. Ser alguém melhor, ser eu mesma e deixar que me amem dessa forma.
É assim que deve ser.
Now you see I never thought you be a constant person in my life ♪