Havia um corpo no chão. Estático, braços e pernas flácidos. De longe, poderia se dizer que era um cadáver. Ela estava de bruços, olhava fixamente o nada. Mas a cabeça trabalhava rápido. Muito rápido.
As coisas passaram dos limites.
Ficou fora do controle.
Eu não podia ter deixado acontecer.
As horas iam se passando e continuava sem se mover, olhos fixos em alguma parte do que seria uma mesa, já não sabia o que olhava.
Como pude deixar chegar a esse ponto?
Burra.
Burra.
Perdi o controle. Como pude?
Mais horas se passavam, sentia o dia amanhecendo e a claridade chegava de algum lugar que não conhecia. Parecia dormir e acordar, não saberia dizer, sua mente vagava de formas estranhas. Era sempre um misto de imagens dispersas e sem sentido. Era um turbilhão. E apenas algumas poucas palavras se formavam. Também já tinham perdido o sentido.
Fora de controle.
Burra.
Limites.
O dia definitivamente nasceu em algum lugar. Começou a sentir um cheiro estranho, desagradável. Por algum motivo, sua mente clareava
Acabou.
Enfim, acabou
Sentiu alívio também. O cheiro ficava mais forte.
É o fim.
Começou a se mover. Levantou. Sentiu-se tonta. Olhou em volta e viu o outro corpo que estava próximo. Cutucou-o com o pé.
- Ei, acabou!
Deu um sorriso sem alegria, um pouco insano. Foi até a cozinha, pegou enormes sacos de lixo. Voltou para o cadáver.
- É isso mesmo, acabou!
Pegou o cadáver como pode, levou para fora. Cavou um buraco. Apreciou o processo, parecia se sentir melhor a cada instante, a cada quantidade de areia que tirava. A cova era mal feita, mas bem funda. Perdera algumas horas cavando e sentindo aquele cheiro desagradável, suava bastante. Começou a sorrir. Jogou-o lá dentro. Olhou uma última vez.
- Eu nunca perco o controle. E agora acabou.
Enterrou-o. Voltou pra casa. Tinha sangue no chão. Foi até a cozinha, pegou todos os produtos que viu. Misturou tudo e limpou. Continuava a apreciar aquele processo cansativo, que a revigorava. Quando terminou, o cheiro de morte ainda era forte, mas não havia mais nenhum vestígio do que acontecera. Foi até o quarto, juntou tudo que lhe lembrava ele. Levou para fora e queimou na lata de lixo. Gargalhava. Gostou do cheiro forte da fumaça tanto quando do cheiro cadavérico da decomposição. Voltou para dentro. Pegou o pouco que lhe restava. Fechou a porta. Enterrou a chave em algum lugar mais ou menos distante da casa.
Foi embora.
Agora sim, agora acabou.
Now you’re just somebody that I used to know ♪

