quarta-feira, 27 de junho de 2012

Fly


Havia um corpo no chão. Estático, braços e pernas flácidos. De longe, poderia se dizer que era um cadáver. Ela estava de bruços, olhava fixamente o nada. Mas a cabeça trabalhava rápido. Muito rápido.

As coisas passaram dos limites. 
Ficou fora do controle. 
Eu não podia ter deixado acontecer. 

As horas iam se passando e continuava sem se mover, olhos fixos em alguma parte do que seria uma mesa, já não sabia o que olhava.


Como pude deixar chegar a esse ponto? 
Burra. 
Burra. 
Perdi o controle. Como pude?

Mais horas se passavam, sentia o dia amanhecendo e a claridade chegava de algum lugar que não conhecia. Parecia dormir e acordar, não saberia dizer, sua mente vagava de formas estranhas. Era sempre um misto de imagens dispersas e sem sentido. Era um turbilhão. E apenas algumas poucas palavras se formavam. Também já tinham perdido o sentido.

Fora de controle. 
Burra. 
Limites.

O dia definitivamente nasceu em algum lugar. Começou a sentir um cheiro estranho, desagradável. Por algum motivo, sua mente clareava

Acabou. 
Enfim, acabou

Sentiu alívio também. O cheiro ficava mais forte.

É o fim.

 Começou a se mover. Levantou. Sentiu-se tonta. Olhou em volta e viu o outro corpo que estava próximo. Cutucou-o com o pé.

 - Ei, acabou!

 Deu um sorriso sem alegria, um pouco insano. Foi até a cozinha, pegou enormes sacos de lixo. Voltou para o cadáver.

 - É isso mesmo, acabou!

 Pegou o cadáver como pode, levou para fora. Cavou um buraco. Apreciou o processo, parecia se sentir melhor a cada instante, a cada quantidade de areia que tirava. A cova era mal feita, mas bem funda. Perdera algumas horas cavando e sentindo aquele cheiro desagradável, suava bastante. Começou a sorrir. Jogou-o lá dentro. Olhou uma última vez.

 - Eu nunca perco o controle. E agora acabou.

 Enterrou-o. Voltou pra casa. Tinha sangue no chão. Foi até a cozinha, pegou todos os produtos que viu. Misturou tudo e limpou. Continuava a apreciar aquele processo cansativo, que a revigorava. Quando terminou, o cheiro de morte ainda era forte, mas não havia mais nenhum vestígio do que acontecera. Foi até o quarto, juntou tudo que lhe lembrava ele. Levou para fora e queimou na lata de lixo. Gargalhava. Gostou do cheiro forte da fumaça tanto quando do cheiro cadavérico da decomposição. Voltou para dentro. Pegou o pouco que lhe restava. Fechou a porta. Enterrou a chave em algum lugar mais ou menos distante da casa. 

Foi embora.

Agora sim, agora acabou.


 Now you’re just somebody that I used to know ♪

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Eu, Franklin, deixo os 17 reais.

Ele tinha um não sei o que no olhar. Um misto de raiva, tristeza e prazer. Muito prazer. As armas, já descarregadas e satisfeitas eram a imagem de seu gozo. Não via muito em sua frente. Sangue, corpos, a quem importa? Tinha sido este seu momento. Uma preparação minuciosa de um momento épico. Histórico. O professor foi brincar. A brincadeira foi feita pelo professor. Ah, depois de tantos anos, enfim, seu momento chegou. Na verdade mesmo, não se lembrava muito dos momentos anteriores. Não lembraria nunca. Descarregava as armas sem olhar, apenas disparava e gritava, ia se esvaziando com elas. Ia acabando. Ao mesmo tempo, enchendo. Diante de toda a gritaria, não ouvia nada. E, de repente, silêncio, silêncio real. Tornara-se tão bom atirador que as vozes calaram antes de suas armas. Convenceu-se de que ainda não acabara. Continuou a atirar. Disparava em todos os corpos já sem vida. Iria cumprir a missão, fosse como fosse. No último suspiro de sua última arma, sabia que esse seria um momento único. Não, não guardaria nunca uma última bala para si. Ele viveria pra terminar o que começou, pra receber os aplausos e agradecimentos por sua festa. No fim, nada disso importava tanto. Aquele tinha sido seu momento. E ele, enfim, sentiu. I don’t wanna live that way ♪