Eu te esperei a noite inteira. Queria muito um cigarro e uma bebida bem forte, mas a vida era diferente agora. Eu era outra pessoa, tinha deixado de lado minha suposta essência. Abri mão dos pequenos suicídios e grandes autodestruições. Eu era, então, forte. Tinha toda uma vida pra orgulhar meus progenitores, pra orgulhar a mim mesma.
Ficou, no íntimo, uma dúvida sobre a razão real de tanto orgulho. Se era por ser limpa, se era por ser forte ou se era por abrir mão de ser quem sou. A verdade é que eu não sei dizer ainda se luto por mim ou pelos outros, não sei dizer qual seria a razão real de se orgulhar.
E continuava esperando você, pensando em mim. Pensando se, na verdade, esperar você não era uma forma de retomar o pouco de morte que tinha dentro de mim no passado. Se não era um jeito de estar com a pessoa que fui antes, que ama tanto a espera, a dúvida, a tortura.
E olhava o relógio. Ao mesmo tempo em que a hora parecia se arrastar, ela voava. E você continuava ausente, não chegava nunca. Não sabia mais se esperava por você ou por mim, se quem demorava e por quem eu ansiava não era, na realidade, aquela parte que eu tanto odiei, mas que tanto fez falta.
Aos poucos me dei conta de que você não viria mais, que você tinha ido embora pra sempre. Umas poucas lágrimas angustiadas caíram dos meus olhos, tinha muito tempo que eu não chorava. Desde que minha outra parte se foi. Dei-me conta, então, que ela nunca foi embora. Que a eterna espera por você era ela se fazendo viva dentro de mim, era uma forma de me provar que não importa o quanto eu me tornasse forte, não importa que eu tenha deixado de me destruir fisicamente. De alguma forma, eu seria sempre minha melhor amiga e minha pior inimiga. De alguma forma, seriam as minhas mãos que me matariam e elas mesmas a me ressuscitarem.
Mas ficou tudo fora de lugar. Café sem açúcar, dança sem par ♪



