quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Cartas para o passado



Eu já sinto falta do seu cheiro de cigarro e sabonete. Já sinto falta do gosto de álcool na sua boca. Do seu jeito estranho de me olhar. Já sinto falta de te ver dormindo, de acordar do seu lado. Já sinto falta das suas piadas idiotas, das nossas piadas idiotas. Já sinto falta de te abraçar e me sentir no lugar mais seguro do mundo, de te beijar e esquecer do resto. Sinto falta da sua mão grande no meu corpo, do jeito como você sorri pra mim às vezes, só às vezes. Eu to com a sensação de que ta tudo acabando antes do tempo, que mesmo que não acabe, uma parte da gente ta morrendo e não era pra morrer agora. Eu to sentindo que você vai embora mais cedo ou mais tarde, que vai se dar conta de que esse amor foi mera paixão passageira. Intensa, mas passageira. Você vai ser mais um na minha lista, mais um que vai embora.
O que mais me da raiva, o que mais me da vontade de quebrar tudo e explodir o mundo é saber que eu não tenho o mero direto de sentir raiva. Nem de você, nem de ninguém. Eu passei a minha vida contando as pessoas que foram embora, as pessoas que ficaram de saco cheio. E eu tinha raiva, tinha raiva de não poder culpar nenhuma delas. Você tava certo, eu sou intolerante e intransigente. Também sou egoísta, possessiva, ciumenta, exigente, impaciente... Eu poderia passar a vida inteira aqui. Tudo que eu queria, por um momento, era saber como é ser diferente, como é ser outra. Talvez assim eu pudesse mudar. A verdade é que eu não sei ser diferente. Eu vivia me vangloriando do quanto tinha crescido, amadurecido, evoluído. A verdade é que isso é só teatro, quando você olha de perto, eu sou a mesma garota que eu era há 7 anos atrás. A mesma mimada e incompreensiva. Eu fiz um monte de gente ir embora naquela época. E to fazendo você ir agora.
Talvez alguém ache que é de propósito, às vezes eu mesma acho que faço isso pra ter sobre o que escrever, pra fazer drama, pra ver se alguém se penaliza com a pobre menina branca. Mas a maior parte do tempo eu só acho que não posso controlar isso, que por mais que eu te diga que quero mudar, que quero ser uma boa pessoa, eu vou continuar sendo aquela pessoa que finge que ta dormindo pra não ter que levantar pro velhinho. Vou continuar sendo aquela garota que te machuca e magoa.
E, se tem uma coisa que eu não quero mais, é ser a razão da sua mágoa. Você foi uma das pessoas mais especiais que eu já conheci, é uma pena que eu não consiga demonstrar isso com a freqüência que sinto. Por que as vezes eu olho pra você e sinto um orgulho enorme de estar do seu lado, de você ter escolhido ficar comigo. Eu sinto orgulho de apresentar você pras pessoas, de mostrar o homem maravilhoso que eu consegui. E se você soubesse o quanto eu to me odiando por me deixar perder você assim, por não ter sido capaz de mostrar pra você que eu me sentia assim...
Você é incrível, e as coisas que você me fez sentir nesse tempo foram lindas, coisas que eu achei que era incapaz de voltar a sentir. Tudo que eu queria hoje era poder voltar no tempo, e dizer pra você tudo isso naquela época, quando você ainda me amava, quando você era, de fato, apaixonado por mim. Queria poder fazer você ver a pessoa maravilhosa que você é e o quanto eu me sentia sortuda de ter você comigo, e não ao contrário.
Agora, o tempo já passou, e eu sei que ainda que a gente continue junto, nunca mais vai ser a mesma coisa. E eu já sinto muita falta do que foi.
Eu te amo.

I can’t believe this could be the end ♪

domingo, 7 de outubro de 2012

Ausência



Um grande buraco se abriu no cérebro. Cheio de miolos e branco. Ausência de alegria, ausência de tristeza. Havia, há muito tempo, um mundo ali dentro, único, cheio de vida, nunca adormecia. Hoje, mero estar, objeto do mundo, apenas órgão vital.
Aquelas veias que pulsavam sonho, vontade. Se ausentaram, se esvaíram de desejos e ausências. Se esvaíram no não ocorrido. No quase começado. Certa vergonha e orgulho se misturam no que na verdade não era pra ser, no que deu errado, e ao mesmo tempo meio que certo. Só não era pra ser.
E aquelas perguntas, questionamentos que tiraram o direto à escrita. Uma mera trava na liberdade literária. A agulha que drena o sangue. A bala que explode o cérebro. E vai tudo por água abaixo. Você nunca mais vai ser a mesma. Até que a bomba exploda e tudo vá pelos ares. Você nunca mais vai ser tão aberta, bonita ou sensível. Virou tudo mera pedra parada no meio do caminho. E antes fosse tal pedra poesia, é mera frieza. Pura depressão.

But your voice is too loud ♪

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Fly


Havia um corpo no chão. Estático, braços e pernas flácidos. De longe, poderia se dizer que era um cadáver. Ela estava de bruços, olhava fixamente o nada. Mas a cabeça trabalhava rápido. Muito rápido.

As coisas passaram dos limites. 
Ficou fora do controle. 
Eu não podia ter deixado acontecer. 

As horas iam se passando e continuava sem se mover, olhos fixos em alguma parte do que seria uma mesa, já não sabia o que olhava.


Como pude deixar chegar a esse ponto? 
Burra. 
Burra. 
Perdi o controle. Como pude?

Mais horas se passavam, sentia o dia amanhecendo e a claridade chegava de algum lugar que não conhecia. Parecia dormir e acordar, não saberia dizer, sua mente vagava de formas estranhas. Era sempre um misto de imagens dispersas e sem sentido. Era um turbilhão. E apenas algumas poucas palavras se formavam. Também já tinham perdido o sentido.

Fora de controle. 
Burra. 
Limites.

O dia definitivamente nasceu em algum lugar. Começou a sentir um cheiro estranho, desagradável. Por algum motivo, sua mente clareava

Acabou. 
Enfim, acabou

Sentiu alívio também. O cheiro ficava mais forte.

É o fim.

 Começou a se mover. Levantou. Sentiu-se tonta. Olhou em volta e viu o outro corpo que estava próximo. Cutucou-o com o pé.

 - Ei, acabou!

 Deu um sorriso sem alegria, um pouco insano. Foi até a cozinha, pegou enormes sacos de lixo. Voltou para o cadáver.

 - É isso mesmo, acabou!

 Pegou o cadáver como pode, levou para fora. Cavou um buraco. Apreciou o processo, parecia se sentir melhor a cada instante, a cada quantidade de areia que tirava. A cova era mal feita, mas bem funda. Perdera algumas horas cavando e sentindo aquele cheiro desagradável, suava bastante. Começou a sorrir. Jogou-o lá dentro. Olhou uma última vez.

 - Eu nunca perco o controle. E agora acabou.

 Enterrou-o. Voltou pra casa. Tinha sangue no chão. Foi até a cozinha, pegou todos os produtos que viu. Misturou tudo e limpou. Continuava a apreciar aquele processo cansativo, que a revigorava. Quando terminou, o cheiro de morte ainda era forte, mas não havia mais nenhum vestígio do que acontecera. Foi até o quarto, juntou tudo que lhe lembrava ele. Levou para fora e queimou na lata de lixo. Gargalhava. Gostou do cheiro forte da fumaça tanto quando do cheiro cadavérico da decomposição. Voltou para dentro. Pegou o pouco que lhe restava. Fechou a porta. Enterrou a chave em algum lugar mais ou menos distante da casa. 

Foi embora.

Agora sim, agora acabou.


 Now you’re just somebody that I used to know ♪

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Eu, Franklin, deixo os 17 reais.

Ele tinha um não sei o que no olhar. Um misto de raiva, tristeza e prazer. Muito prazer. As armas, já descarregadas e satisfeitas eram a imagem de seu gozo. Não via muito em sua frente. Sangue, corpos, a quem importa? Tinha sido este seu momento. Uma preparação minuciosa de um momento épico. Histórico. O professor foi brincar. A brincadeira foi feita pelo professor. Ah, depois de tantos anos, enfim, seu momento chegou. Na verdade mesmo, não se lembrava muito dos momentos anteriores. Não lembraria nunca. Descarregava as armas sem olhar, apenas disparava e gritava, ia se esvaziando com elas. Ia acabando. Ao mesmo tempo, enchendo. Diante de toda a gritaria, não ouvia nada. E, de repente, silêncio, silêncio real. Tornara-se tão bom atirador que as vozes calaram antes de suas armas. Convenceu-se de que ainda não acabara. Continuou a atirar. Disparava em todos os corpos já sem vida. Iria cumprir a missão, fosse como fosse. No último suspiro de sua última arma, sabia que esse seria um momento único. Não, não guardaria nunca uma última bala para si. Ele viveria pra terminar o que começou, pra receber os aplausos e agradecimentos por sua festa. No fim, nada disso importava tanto. Aquele tinha sido seu momento. E ele, enfim, sentiu. I don’t wanna live that way ♪

terça-feira, 10 de abril de 2012

Bloqueio literário


É engraçada a dificuldade que eu sinto de pôr em palavras meus sentimentos por você. Por tanto tempo minhas melhores aliadas foram elas; eu não sabia demonstrar meus sentimentos no dia a dia, com ações, mas sabia escrever muito bem sobre eles. Hoje em dia, acho que não sei nenhum dos dois. Não sei falar mais de paixão, acho que tomei vergonha de estar apaixonada, tudo parece tosco e clichê. Talvez seja por que me parece muito mais simples falar de sentimentos tristes, de dores do que de alegria. E é exatamente aí que vejo a trava em minhas palavras. Eu to feliz. E a felicidade é minha falta de inspiração, o buraco negro das minhas palavras. Minha fala desconhecida.
Você é meu bloqueio literário. E o motivo dos meus sorrisos mais bobos e embaraçosos. Eu tenho vergonha da gente, mesmo quando estamos sozinhos, tenho vergonha da outra parte de mim que nos despreza e ri de nossa fragilidade. Tenho tanta vergonha da gente que às vezes escondo meus sentimentos de mim mesma, me congelo por dentro. Fica mais fácil pisar em campo conhecido. Mas às vezes me distraio e falo coisas embaraçosas, falo com vozes idiotas e dou abraços sem sentido. Acho que fiquei vermelha só de escrever, soa tão ridiculamente embaraçoso. Vivo um complexo de sentimentos e bloqueio literário muito difícil de lidar, ao menos para alguém como eu.
Talvez por prepotência, achei que já conhecia todos esses tipos de sentimentos, mas me dei conta de que tenho uma estrada ainda longa pela frente, cheia de traumas e medos pra enfrentar. Por que você despertou em mim coisas antigas e ao mesmo tempo novas, que eu não sei lidar.
Mas tenho a sensação de que por você vale a pena, com você vale a pena enfrentar tudo isso.

I’m glad you came ♪

sexta-feira, 16 de março de 2012

So good bye...


É como no fim de um namoro. Quando um ainda tem esperanças e o outro diz que não ama mais. É essa sensação de falta de ar, de incredulidade, de dor mesmo. Dor pura, dor dura. Aquela que é pior que facada, que tiro. Daí vem as malditas. Não pedem licença e chegam sem aviso prévio. Quando você vê, tem uma lágrima escapulindo. E você segura, engole. Até que explode. E aí não se sabe mais qual dor é pior. A sufocada, que dói em pontada. Ou a gritante, que parece te rasgar os olhos enquanto você já se entregou ao inevitável.
Tive muita vergonha de mostrar as coisas que sentia, era uma questão de orgulho – orgulho tal que saiu mais ferido que o esperado – que agora, não sei mais dizer as coisas que sinto. Não consigo dar nome ao sofrimento.
A vontade é de gritar e te sacudir, dizer o quanto você foi burra, que eu senti sua falta, que tava precisando de você. A verdade é que eu sei não foi recíproco, e eu nem posso dizer o que penso. Seria forçar você a mentir. Então não digo nada. Engulo novamente, choro escondida, não choro. Não grito e não pego o telefone. Fico olhando pra ele e pensando as coisas diferentes que poderiam ser ditas. Ou ao menos tudo que eu gostaria de dize sobre. Mas só olho e imagino. Gosto de tomar a lição como um desencorajamento. Por que dar o braço a torcer, dizer como se sente ou passar por cima do orgulho? Não da certo, você nasceu pra se calar. Pra ser orgulhosa.
E então me calo. Sofro. Choro. Esperneio. E então escrevo. Escrevo tudo que não tive coragem de dizer, tudo que eu acredito que deva ser calado. Escrevo pra ninguém, escrevo pra você. Escrevo pra criança chorona que eu fui que aprendeu a se reprimir. Reprime mal e odeia a repressão, mas segue fazendo o que a vida ensinou ser certo. Se é assim que é ser feliz, não sei. Mas eu me calei.
Me calei pra não dizer que você foi a minha melhor amiga, que em momento nenhum eu imaginei que teríamos de fato um fim. Me calei pra não dizer que você partiu meu coração mais que qualquer homem ou amor. Calei a vontade de dizer que eu te amo, que te odeio. Que tenho uma raiva e um carinho enormes. Que eu nunca vou perdoar você, mesmo sabendo que eu não sou capaz disso. Calei, enfim, a minha voz e minha amizade.


It's lonely out in space
On such a timeless fligh ♪

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Wicked game



A verdade é que eu fico olhando pro relógio e pensando o que você deve estar fazendo nesse exato momento. Esperando a hora que você vai largar seus deveres e poder ser meu, mesmo que não meu por completo. Quando não estou com você, penso o tempo inteiro no que está fazendo; e quando estou, penso no que está pensando. Quero saber cada passo e a razão de cada sorriso seu, quero entender tudo sobre você, sobre a sua história. É assustador ter me apaixonado tão rápido e saber tão pouco de você. Por que eu quase nunca sei quais vão ser seus passos ou suas palavras, e me envolver tanto em uma relação da qual não sei o que esperar é como ativar uma bomba e deixar na cabeceira antes de dormir. Exige uma confiança que eu não tenho, uma segurança que me foi tirada e uma paciência que nunca foi minha. Eu sei, deve ser assustador pra você também. Fico me perguntando o tempo todo em que momento tudo isso aconteceu, se foi logo no começo, se eu deixei acontecer e não percebi. O fato é que eu acredito que perdi o controle do que sinto, e isso me apavora mais a cada segundo. É como se um passo em falso fosse destruir tudo que se encontra em tão perfeito estado.
Eu acho que é esse o problema da perfeição: ela não dura pra sempre. Em algum momento eu sei que essas coisas vão mudar e é como se eu prendesse a respiração, fechasse os olhos e ficasse esperando o momento de apanhar. Talvez se eu não ver, eu não sinta.
Quando olho pra nós dois vejo um clichê tão grande e ridículo que dá vontade de vomitar. A paixão, o romance, a perfeição do imperfeito. Santo Deus! Parece um filme água com açúcar da sessão da tarde. E o pior, o pior de tudo, é que eu estou amando. Eu amo cada segundo do filme, cada cena, cada detalhe. É tudo lindo e patético. Nós dois, dois apaixonados patéticos. E logo eu, que passei a vida tentando fugir do óbvio.
Acho que não dá pra fugir de você, não dá pra evitar o fato de que o que eu sinto é apavorante e eu não sei o que fazer com tudo isso. Não dá pra fugir do fato de saber que um dia essas coisas vão mudar e que vai doer pra caralho. Não dá pra fugir do fato de que eu sei que estou sofrendo com antecedência e deixando de aproveitar o momento. A questão é que às vezes eu acho mais fácil sofrer pelas minhas próprias mãos do que pelas dos outros. Na minha cabecinha, talvez, se eu sofrer antes e já pensar no pior antes, quando chegar a hora vai doer menos. Se faz sentido ou se é real eu não sei, mas é assim. Talvez a idéia de sofrer por mim mesma me traga mais segurança do que a idéia de deixar que alguém machuque meus sentimentos. Mesmo que esse alguém seja você. Mesmo que você se diga incapaz de fazer isso comigo. O problema é que você é o único que pode, você é o único, nesse momento, que pode puxar o meu tapete e me fazer ir de cara ao chão. Eu confio em você, não confio é em mim.

They melt my heart to stone ♪

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sujeira


E ela adormeceu, enfim. Dentre lágrimas, garrafas de cerveja e cinzas. Adormeceu apenas quando os olhos não se permitiam mais ficar abertos. Tinha medo dos sonhos, na verdade, e ao mesmo tempo tinha medo da realidade. Adormeceu.
Acordou sem saber se haviam passado dias ou minutos, queria levantar e sair da sujeira. Não tinha forças. Abriu os olhos novamente e observou o teto sujo, pensou e voltou a chorar. Adormeceu novamente. Dormiu e acordou diversas vezes, não tinha forças pra se levantar ou pra fazer qualquer outra coisa. Ouvia às vezes o telefone tocar, mas não conseguia levantar pra atender. Na verdade, nem queria. A campainha tocou também, mas ela deixou tocar. Dormia, acordava. Não tinha a mínima idéia de há quanto tempo estava assim, mas parecia fácil viver dessa forma, dormindo, acordando, dormindo de novo. Já não pensava mais, só olhava pro teto. Era como os outros objetos da sala; não se movia, não falava, não pensava. Era mais um peso no mundo, só mais um objeto. Um mero detalhe.
Em algum momento não conseguiu mais adormecer. Passou a mão do rosto e não sabia se o molhado no seu rosto eram lágrimas ou saliva. Sentiu que precisava levantar. Continuava sem forças, sem vontade. Não sabe também quanto tempo passou ali, acordada, olhando pro teto. Até que pensou que precisava beber mais. Levantou. Sentou e ficou mais não se sabe quanto tempo sentada, olhando pro nada. As coisas tinham que ser feitas aos poucos. Chorou mais um pouco. Por fim levantou. De fato não sabia exatamente o que fazer. O telefone tocava menos agora e ela continuava sem vontade de atender. Foi até a geladeira, tinha poucas cervejas. Sair de casa estava fora de cogitação, não sabia mais como funcionava o mundo la fora. Pediu que entregassem em casa. Enfim se comunicou com alguém. Mas foi só isso.
O entregador chegou, ela pegou as cervejas e seus cigarros. Sentou novamente onde estava antes. Bebeu, fumou e chorou. De novo.
Deitou no mesmo lugar. Adormeceu novamente.


I’ll go back to Black ♪

sábado, 14 de janeiro de 2012

Ontem


Eu não perdi nenhum dia de trabalho. Nem da faculdade. Continuei levantando da cama todos os dias, como deveria. Mas já não sorria. Não conversava, não vivia.
Não deixei de cumprir com nenhum dos meus deveres para com a sociedade. Só os deveres comigo mesma. Não sentia fome, não sentia sono. Comia por que deveria e dormia por que os remédios me ninavam.
É um pouco idiota e utópico essas coisas que dizem sobre não viver sem uma determinada pessoa. Que é possível. Por que ele foi embora e eu continuava viva. Só não sabia mais como viver.
Aceitei o fato de que um futuro se aproximava com melhores dias. Mas ele não estava nesses dias, e era isso que me assustava. O telefone calado, a tela do computador que não piscava. A minha mão que ninguém segurava.
Eu continuei levantando, todos os dias, e cumprindo com os meus deveres. Eu estava viva, mas tinha morrido com ele.

Suddenly
I'm not half the man I used to be ♪

domingo, 8 de janeiro de 2012

Em frente



Mais uma vez é Adele sua trilha sonora. Mais uma vez é a voz dela e suas lembranças que derrubam lágrimas desnecessárias dos meus olhos. E fica a pergunta do por que tanta tristeza entre nós dois, por que tanta mágoa, tanta raiva. Em algum momento os sentimentos simples se tornaram coisas complexas e incompreensíveis, e agora fica a pergunta do que foi real, do que foi certo... Ainda que a felicidade seja real sem você, fica a imagem ilusória de um passado de alguma forma bom, que nunca existiu. Foi sempre você, eu, as lágrimas e a raiva. Eternas companheiras.
De alguma forma ridícula e utópica eu ainda acredito na gente, ainda acredito na força do que quer que existiu entre a gente. Ainda acredito numa suposta paz. Também ainda acredito no príncipe do cavalo branco. É só uma questão de perspectiva.
Foi uma pena a felicidade se ausentar de nós dois, mas sinto a hora de virar as costas pra tudo isso, sinto que chegou a hora, de fato, daquele tal ponto final. Eu sei, quantas vezes disse isso? E quanta vezes tornei a afirmar que tal ponto não existe? Não sei, talvez seja o ponto final apenas de um capítulo. Talvez.
Ainda fecho os olhos e lembro do seu abraço, de todas as coisas. Tristes e alegres. Você escreveu parte da minha história e eu não vou esquecer disso. Não vou nunca esquecer o que você significou pra mim.
É hora de olhar pra frente, mas não esqueça que enquanto eu ando, ainda vou olhar pra você.

Should i give up,
Or should i just keep chasing pavements?