
- Dra, eu acho que tenho um problema.
- Fale-me sobre isso.
- Às vezes eu acho que minha vida é uma mentira. Que eu fui vivendo e me deixando levar pelo que havia a minha volta. Às vezes eu acho que sou só um reflexo do que o mundo fez de mim. Às vezes eu acho que não tenho personalidade.
- Todo mundo tem personalidade, mesmo que falsa.
- Eu sei, mas é que eu tenho dificuldade pra entender os conceitos de certo e errado, o porquê de algumas coisas. Por exemplo, quando eu quero muito uma coisa, todas as regras de como agir, de orgulho e amor-próprio vão para o inferno e eu simplesmente faço. Às vezes eu acho que sou mais animal do que humana, não sei dizer ‘não’ aos meus instintos. Mas depois de satisfeita com a realização de meu desejo, fico pensando se fiz certo. Quer dizer, eu sei que todo mundo tem impulsos, somos animais. Mas desde sempre eu não sei dizer não aos meus desejos, eles simplesmente me movem. Muitas vezes eu me sinto um tanto quanto envergonhada de assumir o que fiz por ter me arrependido depois, então eu nego ou diminuo o que aquilo foi pra mim. Eu sei que todo mundo tem máscaras, todo mundo mente, ninguém é aberto ao mundo o tempo todo. Mas eu me sinto mal, não gosto de mostrar ao mundo quem eu realmente sou, principalmente quando eu não sei quem sou, mas também não gosto de mostrar que eu sei que não sou. E eu sei que meto marra de machona, mas tenho medo de dar a cara a tapa, confesso que tenho medo das críticas, tenho medo de perder as pessoas por elas não concordarem com quem eu sou. E então eu penso: como eu posso formar laços verdadeiros quando a pessoa não me conhece por inteiro? Eu acho que meu maior medo é ficar sozinha, ser rejeitada. Claro, ninguém quer ser. Mas eu tenho medo de algum dia olhar pra trás e chorar por tudo que eu perdi no meio do caminho. Eu sei que vou perder muito, mas eu não sei se tenho mais medo de perder os outros ou perder a mim mesma.
- Fale mais sobre isso, você está indo bem.
- Dra, eu às vezes eu acho que já me perdi no meio da estrada. Eu voltei pra procurar e achei muitos parecidos, mas nunca mais achei igual. Acho que de alguma forma, a estrada mudou, agora tem mais buracos, mais quebra-molas e muita fiscalização, não posso mais simplesmente fazer o que eu quero. Se eu fizer, sou condenada e vou presa, ou ao menos tenho que pagar fiança. Sabe, eu só queria que a vida e a sociedade fossem diferentes, queria que as pessoas não julgassem tanto, não se limitassem tanto, queria que fosse normal expor o que deseja e lutar livremente por isso. Eu não gosto de jogos, mas eu jogo, eu não gosto de criar imagens, mas eu crio. Eu faço tudo o que eu condeno e não gosto por uma simples questão de regra social, e pra que? Pra no fim do dia não me encontrar sozinha. Mas sabe como eu vou me encontrar? Vazia.
Um dia me disseram que os ventos às vezes erram a direção ♪