terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sujeira


E ela adormeceu, enfim. Dentre lágrimas, garrafas de cerveja e cinzas. Adormeceu apenas quando os olhos não se permitiam mais ficar abertos. Tinha medo dos sonhos, na verdade, e ao mesmo tempo tinha medo da realidade. Adormeceu.
Acordou sem saber se haviam passado dias ou minutos, queria levantar e sair da sujeira. Não tinha forças. Abriu os olhos novamente e observou o teto sujo, pensou e voltou a chorar. Adormeceu novamente. Dormiu e acordou diversas vezes, não tinha forças pra se levantar ou pra fazer qualquer outra coisa. Ouvia às vezes o telefone tocar, mas não conseguia levantar pra atender. Na verdade, nem queria. A campainha tocou também, mas ela deixou tocar. Dormia, acordava. Não tinha a mínima idéia de há quanto tempo estava assim, mas parecia fácil viver dessa forma, dormindo, acordando, dormindo de novo. Já não pensava mais, só olhava pro teto. Era como os outros objetos da sala; não se movia, não falava, não pensava. Era mais um peso no mundo, só mais um objeto. Um mero detalhe.
Em algum momento não conseguiu mais adormecer. Passou a mão do rosto e não sabia se o molhado no seu rosto eram lágrimas ou saliva. Sentiu que precisava levantar. Continuava sem forças, sem vontade. Não sabe também quanto tempo passou ali, acordada, olhando pro teto. Até que pensou que precisava beber mais. Levantou. Sentou e ficou mais não se sabe quanto tempo sentada, olhando pro nada. As coisas tinham que ser feitas aos poucos. Chorou mais um pouco. Por fim levantou. De fato não sabia exatamente o que fazer. O telefone tocava menos agora e ela continuava sem vontade de atender. Foi até a geladeira, tinha poucas cervejas. Sair de casa estava fora de cogitação, não sabia mais como funcionava o mundo la fora. Pediu que entregassem em casa. Enfim se comunicou com alguém. Mas foi só isso.
O entregador chegou, ela pegou as cervejas e seus cigarros. Sentou novamente onde estava antes. Bebeu, fumou e chorou. De novo.
Deitou no mesmo lugar. Adormeceu novamente.


I’ll go back to Black ♪

sábado, 14 de janeiro de 2012

Ontem


Eu não perdi nenhum dia de trabalho. Nem da faculdade. Continuei levantando da cama todos os dias, como deveria. Mas já não sorria. Não conversava, não vivia.
Não deixei de cumprir com nenhum dos meus deveres para com a sociedade. Só os deveres comigo mesma. Não sentia fome, não sentia sono. Comia por que deveria e dormia por que os remédios me ninavam.
É um pouco idiota e utópico essas coisas que dizem sobre não viver sem uma determinada pessoa. Que é possível. Por que ele foi embora e eu continuava viva. Só não sabia mais como viver.
Aceitei o fato de que um futuro se aproximava com melhores dias. Mas ele não estava nesses dias, e era isso que me assustava. O telefone calado, a tela do computador que não piscava. A minha mão que ninguém segurava.
Eu continuei levantando, todos os dias, e cumprindo com os meus deveres. Eu estava viva, mas tinha morrido com ele.

Suddenly
I'm not half the man I used to be ♪

domingo, 8 de janeiro de 2012

Em frente



Mais uma vez é Adele sua trilha sonora. Mais uma vez é a voz dela e suas lembranças que derrubam lágrimas desnecessárias dos meus olhos. E fica a pergunta do por que tanta tristeza entre nós dois, por que tanta mágoa, tanta raiva. Em algum momento os sentimentos simples se tornaram coisas complexas e incompreensíveis, e agora fica a pergunta do que foi real, do que foi certo... Ainda que a felicidade seja real sem você, fica a imagem ilusória de um passado de alguma forma bom, que nunca existiu. Foi sempre você, eu, as lágrimas e a raiva. Eternas companheiras.
De alguma forma ridícula e utópica eu ainda acredito na gente, ainda acredito na força do que quer que existiu entre a gente. Ainda acredito numa suposta paz. Também ainda acredito no príncipe do cavalo branco. É só uma questão de perspectiva.
Foi uma pena a felicidade se ausentar de nós dois, mas sinto a hora de virar as costas pra tudo isso, sinto que chegou a hora, de fato, daquele tal ponto final. Eu sei, quantas vezes disse isso? E quanta vezes tornei a afirmar que tal ponto não existe? Não sei, talvez seja o ponto final apenas de um capítulo. Talvez.
Ainda fecho os olhos e lembro do seu abraço, de todas as coisas. Tristes e alegres. Você escreveu parte da minha história e eu não vou esquecer disso. Não vou nunca esquecer o que você significou pra mim.
É hora de olhar pra frente, mas não esqueça que enquanto eu ando, ainda vou olhar pra você.

Should i give up,
Or should i just keep chasing pavements?