
E ela adormeceu, enfim. Dentre lágrimas, garrafas de cerveja e cinzas. Adormeceu apenas quando os olhos não se permitiam mais ficar abertos. Tinha medo dos sonhos, na verdade, e ao mesmo tempo tinha medo da realidade. Adormeceu.
Acordou sem saber se haviam passado dias ou minutos, queria levantar e sair da sujeira. Não tinha forças. Abriu os olhos novamente e observou o teto sujo, pensou e voltou a chorar. Adormeceu novamente. Dormiu e acordou diversas vezes, não tinha forças pra se levantar ou pra fazer qualquer outra coisa. Ouvia às vezes o telefone tocar, mas não conseguia levantar pra atender. Na verdade, nem queria. A campainha tocou também, mas ela deixou tocar. Dormia, acordava. Não tinha a mínima idéia de há quanto tempo estava assim, mas parecia fácil viver dessa forma, dormindo, acordando, dormindo de novo. Já não pensava mais, só olhava pro teto. Era como os outros objetos da sala; não se movia, não falava, não pensava. Era mais um peso no mundo, só mais um objeto. Um mero detalhe.
Em algum momento não conseguiu mais adormecer. Passou a mão do rosto e não sabia se o molhado no seu rosto eram lágrimas ou saliva. Sentiu que precisava levantar. Continuava sem forças, sem vontade. Não sabe também quanto tempo passou ali, acordada, olhando pro teto. Até que pensou que precisava beber mais. Levantou. Sentou e ficou mais não se sabe quanto tempo sentada, olhando pro nada. As coisas tinham que ser feitas aos poucos. Chorou mais um pouco. Por fim levantou. De fato não sabia exatamente o que fazer. O telefone tocava menos agora e ela continuava sem vontade de atender. Foi até a geladeira, tinha poucas cervejas. Sair de casa estava fora de cogitação, não sabia mais como funcionava o mundo la fora. Pediu que entregassem em casa. Enfim se comunicou com alguém. Mas foi só isso.
O entregador chegou, ela pegou as cervejas e seus cigarros. Sentou novamente onde estava antes. Bebeu, fumou e chorou. De novo.
Deitou no mesmo lugar. Adormeceu novamente.
I’ll go back to Black ♪

