terça-feira, 7 de junho de 2011

Canção da despedida


O céu estava vermelho. Parecia bonito, mas depois lembrei que o céu não sangra. E não entendi. Lembrei que ele chora, ele grita, fica de mau humor. Mas nunca tinha visto o céu sangrar. Quem machucou o céu? Entendo que, a maior parte do tempo, os seres humanos irritem ele, façam-no sofrer... Mas não entendi como fizeram para machucá-lo.
Então eu andei na rua, eu vi gente comendo lixo, vi pessoas armadas ameaçando a vida de outras, vi brigas, lágrimas, raiva, ódio, sangue... E então me dei conta de que, se o ser humano pode fazer isso consigo mesmo, por que não faria com o céu?
O céu se matou; se matou de desgosto, de saudade, de dor. O céu se matou e não há bebida que mate a saudade, não há transfusão sanguínea. Nada salva o céu. O céu sangrou até a morte e assisti sentada. Não salvaria nem se pudesse, não tenho dúvidas de que ele, enfim, descansou em paz. O céu sorriu aliviado. Não precisa mais assistir a essa comédia trágica que é a humanidade.

Mas ainda é difícil deixar qualquer luz entrar ♪

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