quinta-feira, 16 de maio de 2013

Crack



Me deparei hoje com uma cena muito triste, do meu ponto de vista. Estava no ônibus, que parou no ponto final (no qual permaneci por que desceria depois). Dentro do ônibus, desde que entrei, tinha uma mulher, negra, nitidamente pobre e nitidamente bêbada, dormindo. Ao chegar ao ponto final o motorista desceu, como sempre, e ficou um pouco la fora, pouco depois um amigo dele entra no ônibus e manda a mulher descer, dizendo que chamaria a polícia (alegando o quê, eu não sei, considerando que ela não fez absolutamente nada). A mulher, no auge de sua bebedeira, abriu os olhos vagamente e tornou ao seu sono. Foi quando homem começou a cutucá-la empurrá-la para cair do banco. Ela, ainda assim, não se moveu, quase caiu diversas vezes mas voltava para o lugar como se nada tivesse acontecido. Foi quando comecei a notar que o homem estava, na verdade, se divertindo com a situação, ele ria, zombava dela e dizia coisas humilhantes como “você já tomou banho hoje? Vou te dar um banho”. A mulher permaneceu imóvel, provavelmente por que havia pouco sangue em seu álcool. No fim, o homem desistiu e saiu do ônibus, a mulher tornou a dormir, mesmo com os diversos olhares de reprovação direcionados a ela. 

O que me entristece nessa cena, além do nítido fundo do poço ao qual aquela mulher chegou, foi o riso no rosto daquele homem, que sentia prazer em agredir e humilhar aquela mulher, que nada lhe fez. É nessas horas que eu sinto que o mundo está cada vez mais doente, que os valores estão por completo invertidos.

Outro dia, andando na rua com o pé imobilizado, uma crackuda apontou para ele e disse “bem feito!”. Meus amigos me questionaram por que eu ri, por que não respondi e não mandei ela a merda. Perguntei por que eu faria isso, se, afinal, tal mulher não tem noção nem da própria humanidade, imagined a minha. E imaginei quantas vezes ela deve ter se deparado com uma situação em que diziam “bem feito” pra dor dela. Provavelmente pessoas como eu, que tem a consciência de que ainda existe um ser humano do outro lado, e ainda assim não a vêem como tal. O que me da raiva, são as ditas “pessoas de bem”, que trabalham, se mantém sóbrios e conscientes do mundo em volta e ainda assim sentem raiva do outro, que nada lhe faz; que se diverte as custas da dor dos outros. Me da raiva a ignorância que se espalhou diante do direito do ser humano de ser tratado como tal. Os bandidos são vistos como bicho, o pivete, a crackuda... Talvez nem eles saibam que são humanos, mas o que me dói são as pessoas que sabem, mas ignoram.

O mundo está doente e isso tem me deixado mais doente ainda. Nessas horas eu me questiono se quero mesmo estar aqui.



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