Eu sei que não tem mais nada, sabe? Eu sei que o fato de eu
estar sempre repetindo as mesmas coisas significa que eu não tenho mais nada
pra dizer. Tudo isso sou eu ainda querendo estabelecer algum contato com esse
passado, por mais doloroso que ele seja. Eu tenho uma dificuldade incrível em
abrir mão das pessoas, em simplesmente virar as costas pro passado como se elas
nunca tivessem feito parte da minha vida, mesmo quando essa participação tenha
sido tão dolorosa. Mesmo sabendo que aquela pessoa que eu conheci já não
existe, ou nunca se quer existiu. Eu sinto a maior falta dele, sabe? Do cara
por quem eu me apaixonei. Sinto falta das conversas e tudo mais. É difícil
aceitar que ele tenha morrido dessa forma. Mas ao mesmo tempo eu também sinto
falta da garota que eu fui do lado dele, e também é difícil aceitar que ela
morreu. No fim das contas, acho que o que ta sendo mais difícil de me despedir
é de mim mesma.
Eu perdi a vontade de manter contato com as outras pessoas,
não sinto vontade de falar com ninguém. Muito menos com as pessoas que
estiveram envolvidas por tanto tempo na nossa vida. Eu sei que é horrível eu
fazer isso com os meus amigos, deixar eles de lado por que o mero fato de estar
perto deles me lembra que você também costumava estar. Fora o mal que alguns
deles me causaram diretamente. Ao mesmo tempo, eu sinto falta de companhia.
Acho que eu queria só uma pessoa pra ficar parada do meu lado enquanto eu bebo,
não queria nem mesmo manter um diálogo, só alguém parado pra não dizer que eu
to bebendo sozinha. Mas acho que nem vontade de beber eu tenho mais. Nem de comer,
nem de rir, nem de sair... Nem sono eu tenho sentido, mas sinto muita vontade
de dormir. Dormir e esquecer, apagar, sei lá...
Viver uma outra vida que não
seja essa.
Volta e meia eu me pego pensando num futuro melhor, faço
planos pra lugares distantes daqui, uma vida distante. Mas depois de um tempo
eu logo me dou conta de que não importa pra onde eu vá, eu vou continuar
vivendo comigo mesma, com as lembranças, com a nova eu. E não importa aonde eu
vá, eu sei que dentro de mim vai tudo continuar um deserto, um vazio, um nada.
Acho que é isso. Depois de morrer eu virei nada. Um grande
monte de nada. Morremos juntos, como Romeu e Julieta. Eu disse que a gente era
ficção.
“Estas alegrias violentas tem fins violentos
Falecendo no triunfo, como fogo e pólvora
Que num beijo se consomem.”

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