sábado, 21 de dezembro de 2013

A brisa

Existem certas coisas muito sutis na humanidade e na vida que me agradam incrivelmente. Como o mero fato de o taxista esperar você entrar em casa antes de arrancar o carro. É uma gentileza pequena, quase imperceptível. Não faria diferença nem pra mim e nem pra ele a arrancada do carro. Mas ele esperou, ele, por menor que seja, se importou.

Ao mesmo tempo, acredito que meu lado negativo automaticamente me leva a pensar. E se ele só não queria garantir a próxima corrida? O vendedor é gentil, ele quer que você volte na loja. O taxista quer que você ligue pra ele. Interesses. Interesses esses que não sei lidar, não compreendo. Mas entendo e conheço. Fico me perguntando se esse homem não bate em mulher. Se ele não estupra crianças ou fica puto quando pega um passageiro gay.

É engraçado como eu passei a minha vida inteira fazendo de tudo pra ter fé na humanidade, dando tudo de mim pra fazer a diferença. E como é engraçado e ao mesmo tempo triste eu ter deixado de ser tudo o que eu me orgulhava de ser. Hoje eu acredito pouco, desconfio o tempo inteiro. Aquela fé da qual eu sempre me orgulhei, por algum motivo se desfez. Eu sei, ela vai estar sempre dentro de mim, ela faz parte da minha essência, mas eu perdi a minha muleta, eu perdi tudo o que me fazia forte e feliz. Ela fazia sentido e dentro dela o mundo fazia sentido pra mim. Não faz mais.

Nem eu, nem o mundo.

Às vezes algumas pessoas vêem em mim aquilo que nem eu consigo ver com clareza. Elas me fazem perguntas, se interessam. Tentam me entender, palavras delas. Mas de um tempo pra cá eu sempre me pergunto se existe algum interesse. Às vezes ele quer saber se eu valho à pena, se ele ta só perdendo tempo. Às vezes ele só quer saber quem eu sou, se aproximar. Mas eu to sempre me afastando e indo embora. Eu amo o fato de alguém ficar. Mesmo quando tudo se complica e perde a noção. Pode ser por que o sexo é bom. Mas mesmo sabendo que não é só isso. Que é carinho, importância. Eu desconfio.
Eu sinto que vou passar o resto da minha vida pisando em ovos e desconfiando. A confiança cega pode destruir humanidades, sociedades. Vidas.

Vidas.

Obrigada por se importar.



A coisa mais linda que já aconteceu foi escrever esse texto todo com o Gato me olhando, me cuidando. Calado. Acordado.

E ele nunca me deixa em paz no computador.


É, eu tava precisando.

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